Há modos distintos, mas que podem se combinar, de trair Jair Bolsonaro e o bolsonarismo. Vamos ver. Já escrevi aqui algumas vezes, como vocês sabem, que o centrão e os entusiastas da candidatura de Tarcísio de Freitas à Presidência choraram lágrimas de crocodilo com a condenação do ex-presidente. Curiosamente, o ainda deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que não está disposto a entregar sem luta a sucessão no campo da extrema direita, também recorreu ao réptil para designar os que estão de olho no, digamos, "legado" de seu pai. Vamos pensar, começando pela manifestação mais eloquente deste fim de semana.
Valdemar Costa Neto, presidente do PL, participou,
junto com Gilberto Kassab, presidente do PSD, no sábado, de um evento promovido
no âmbito do Rocas Festival, de Itu, evento podre de chique para o público que
tem cavalos de fino trato. O mediador da conversa foi o deputado estadual Tomé
Abduch (Republicanos-SP), um bolsonarista radical. Quando não mais do que
alguns metros separam a política do estábulo, ou o coice passou a ser uma
categoria de pensamento, ou o pensamento descobriu a metafísica do coice.
Aguardo manifestação em defesa dos jumentos, que correm o risco de entrar em
extinção — refiro-me aos que se movem sobre quatro apoios, naturalmente, não
aos bípedes.
Há um modo mais sutil de trair, exercendo-se uma
espécie de concupiscência da fidelidade, que é o que faz Tarcísio. Entendam: o
fiel concupiscente é aquele que faz questão de chamar a atenção para a grandeza
de sua devoção, deixando claro que espera uma paga.
(Reinaldo Azevedo)

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