Bem, caras e caros, convém dizer sem salamaleques ou
solenidades: o candidato do Missão, Renan Santos, pôs Flávio Bolsonaro para
correr. O senador, valentão no gogó, mas vacilante no gesto, jurara no dia 27
que encararia o confronto da Globo, quaisquer que fossem os adversários.
Até aí, a bravata murcha não surpreende rigorosamente ninguém. O que causa verdadeira estupefação é que a entrada de Renan botou para
correr a própria emissora. Bastou que uma decisão judicial incluísse o quinto
personagem — o que converteria em real debate a farsa confortável do “Todos
Contra Um” — para que a Globo, em um estalo de arrogância, deixasse de ver
interesse público no programa. Todos estão, por certo, muito indignados com as
decisões da Justiça. Trata-se de uma simbiose rara de tartufices. Refiro-me à
personagem Tartufo, da peça homônima de Molière, o símbolo máximo do hipócrita
que emana falsos pretextos morais para mascarar interesses espúrios e romper
promessas. Flávio fugiu porque se acovardou — e sempre convém evitar síncopes
em público. E a Globo? Aí algum valente de internet haverá de clamar: “Ah, mas
Lula escolheu não ir”. É verdade! Mas quem disse que estava a tanto obrigado? Não indo,
de onde extrai a Globo o direito de puni-lo? Da Constituição? Não. Da Lei
Eleitoral? Não. Do fato de a Globo ser a Globo? Até onde os manuais de
introdução ao direito ensinam, a concessão de TV ainda não é uma fonte autônoma
de jurisprudência, nem a emissora dispõe de um Código Penal privado para chamar
de seu. Flávio,
então, decidiu escafeder-se com medo de Renan. E a Globo cancelou o evento. É
um comportamento, no mínimo, bizarro. Se o programa era, como se alegava, de
interesse público, nem a ausência dos dois líderes nas pesquisas — Lula e
Flávio — seria capaz de mudar o seu caráter, certo?
(Reinaldo Azevedo)









