01 novembro 2020

JUÍZA BLANCHE E PRESO PRETO: Tudo é cor no Brasil de Kafka

Este texto pode ser um rap, uma aula sobre cores ou capitalismo contemporâneo, um brevíssimo ensaio sobre a história do Brasil ou um conto descarado imitando Kafka. Você escolhe.

A companhia Grow declarou que está devendo R$ 40 milhões aos seus credores. Já o autônomo Alexsandro tem R$ 5 no bolso. A Grow é dona das bicicletas e patinetes de aluguel Yellow, que ficaram conhecidos em quase todo país após o breve funcionamento do serviço. O negócio não deu certo e as operações foram encerradas.

 

Alexsandro é dono de uma cafeteira e de um ventilador que ele mandou consertar. Também é proprietário de um paninho laranja, acessório que, para muitos, transmuta-se em seu nome e profissão: flanelinha.

 

Ele estava no bairro de Afogados, de madrugada, quando a polícia chegou trazendo Daniel da Silva Neto, abordado em Areias, um bairro a cerca de seis quilômetros dali. Daniel conduzia justamente uma das bicicletas da Yellow quando a PM passou perto e entendeu a justaposição do rapaz de 30 anos e da bike moderninha como "suspeita". Daniel disse que o veículo era furtado, mas era outro, e não ele, o autor do crime: o culpado seria justamente Alexsandro.

 

A polícia saiu à procura do dono do ventilador e da flanelinha e o encontrou com Anderson Carlos da Silva, 22. Todos foram levados para a delegacia, o boletim de ocorrência foi realizado e, horas mais tarde, naquele mesmo 24 de abril de 2019, aconteceu a audiência de custódia.

 

É aí que aparece uma nova cor entre o redundante amarelo -Yellow e a também redundante cor preta da população carcerária do país: a juíza Blanche Maymone Pontes Matos. A magistrada, cujo primeiro nome significa "branco" em francês, entendeu que o flagrante dos três rapazes era legal e estava "formalmente em ordem", apesar de a prisão de Alexsandro e Anderson ter sido realizada bem depois da primeira abordagem e apesar de nenhum dos dois estar com qualquer objeto roubado.

 

Alexsandro foi solto. Mas, graças à PM e à juíza Blanche, ficou preso durante um ano e dois meses, ou seja: custou aproximadamente R$ 27 mil enquanto esteve encarcerado, o mesmo valor de quase 70 bicicletas novinhas da Grow.


(Trechos Extraídos de Fabiana Moraes, colunista da UOL)



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