A volta
às histórias de vida de Eunice e Rubens Paiva, que o filme “Ainda estou aqui”
tornou possível, suscitou uma onda de empatia com aquela família, assim como
com milhares de outras famílias, que passaram por terríveis sofrimentos durante
a ditadura militar. O filme possibilitou também que brasileiros desmemoriados
ou mal-informados tomassem conhecimento desses fatos, e de como eles afetaram a
vida de pessoas comuns.
A memória coletiva sobre erros do passado, visando a sua não
repetição, é algo importante de ser cultivado. A Alemanha tenta não esquecer
dos crimes do nazismo, sempre informando à juventude sobre o ocorrido. Mesmo
assim, lá o perigo agora renasce, com a adesão de boa parte da população a
partidos neonazistas, e com dirigentes governamentais apoiando o genocídio em
Gaza.
Entre nós, o importante trabalho de manter a memória dos tempos
da ditadura militar tem sido pouco efetivo. Os horrores daquele período vão
sendo esquecidos ou relativizados. Milhões de eleitores acharam possível votar
em alguém que defendia a ditadura, assim como os torturadores. No final, como
esperado, houve a tentativa de um golpe de estado. Isso deveria fazer soar o
sinal de alarme entre as pessoas de bem. Talvez os levantamentos das Comissões
da Verdade não tenham atingido a sensibilidade da maioria dos brasileiros,
gerando uma vacina contra o totalitarismo.
Algo que o filme de Walter Salles ensina é que é preciso chegar até à fonte das emoções das pessoas, aquilo que é compartilhado por todos os seres humanos. É preciso mostrar que a ditadura não perseguia apenas os que ativamente militavam contra ela. Ela era um mal na vida cotidiana de cada um.
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