12 setembro 2022

10 anos da Lei de Cotas: Da escola pública para o diploma de medicina

No consultório de um dos postos de saúde de São Bernardo do Campo (SP), o filho de um pedreiro e de uma operadora de caixa veste o jaleco branco para atender aos pacientes. Foi por meio das cotas que Ítalo Pereira, de 25 anos, estudou medicina e virou doutor – mesmo que ele não goste de ser chamado por esse título. A mãe parou de trabalhar, pois, hoje, ele consegue custear aquela que, apesar de todas as dificuldades, nunca perdeu as esperanças. “Eu morava perto da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora). Antes de saber o curso que faria, eu já sabia onde iria estudar. Minha mãe e minha tia sempre falaram: ‘Você vai estudar lá’”, conta. Elas estavam certas. Há um ano, ele se formou. O hoje médico de família sempre estudou em escola pública e cursou o nível médio no Instituto Federal de Juiz de Fora. “Na minha escola faltaram só fazer cartaz quando fui aprovado, porque é um meio bem pobre”, conta. Mas, chegar até a graduação, por meio das cotas, foi um longo processo que passou também pela aceitação. “Essa questão de negros não retintos é comum em muitas pessoas, por falta de referência mesmo. Minha pele é mais escura que a dos meus pais, tenho avô negro retinto, minha família é de várias origens, etnias, custei a entender o que sou. E só consegui depois de perceber que determinadas situações pelas quais passei na minha vida tinham questões raciais envolvidas”, relata. “Durante quase todo o ensino médio tive auxílio de renda, o que me ajudou a olhar para a UFJF pensando nessa questão da permanência. A partir do momento em que me aceitei como negro, quis as cotas também e percebi a questão do direito.”


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