29 junho 2019

METAMORFOSE AMBULANTE: Crítico às mensagens de Moro, Gilmar Mendes já considerou escutas "deploráveis"


O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes embebe-se em fúria toda vez que o acusam de mover-se ao sabor das conveniências pessoais e políticas. Nenhum escrúpulo de delicadeza o detém no arremesso à dignidade de quem ousa criticá-lo. Trata-se de uma compreensível reação humana de quem, não raro, adota comportamentos camaleônicos. Gilmar Mendes , de fato, prefere ser uma metamorfose ambulante. Senão vejamos. Em 2008, o ministro — então presidente da corte — protagonizou o estrepitoso episódio que resultou na saída de Paulo Lacerda do comando da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN). Chamou o então presidente Lula às falas alegando ter sido grampeado numa conversa com o ex-senador Demóstenes Torres — segundo o livro Operação Banqueiro, de Rubens Valente, o famoso grampo sem áudio. “Não há mais como descer na escala da degradação institucional. Gravar clandestinamente os telefonemas do presidente do Supremo Tribunal Federal é coisa de regime totalitário. É deplorável. É ofensivo. É indigno”, esbravejou o ministro em setembro daquele ano. “Cabe ao presidente da República punir os responsáveis por essa agressão”, acrescentou. Mais de uma década depois, Gilmar imprime novas cores a tema análogo. Agora, a invasão da privacidade de um magistrado deixou de ser “deplorável”, “ofensivo”, “indigno” ou “coisa de regime totalitário”. O ministro não se insurge mais contra quem possa ter violado as conversas do então juiz, seja lá quem for. Pelo contrário. Em recente entrevista, disse enxergar a prática de crime nos diálogos, não mais no hackeamento ou grampo — tanto faz. Na última semana, passou a defender abertamente a anulação da condenação de Lula , o mesmo a quem lá atrás havia chamado às falas.
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