David A. Magalhães*
Nos próximos dias, o Congresso norte-americano irá decidir sobre mais uma intervenção militar dos EUA no Oriente Médio. Se os congressistas seguirem o exemplo do Parlamento inglês e não autorizarem o uso de força militar contra a Síria, será lançado um grande questionamento sobre a aliança entre liberais e neoconservadores, que se tornou a base de sustentação ideológica da política externa dos EUA desde o 11 de Setembro. Para que isso ocorra, no entanto, será fundamental o veto dos congressistas republicanos.
A votação deve expor as fissuras internas do partido republicano, que, em matéria de política externa, está muito longe de ser um bloco coeso e monolítico. Essas divisões ficaram ainda mais nítidas após uma década de guerras no Afeganistão e no Iraque, comprometendo qualquer consenso possível a respeito do papel que devem desempenhar os EUA na ordem internacional. Podemos esperar, portanto, o embate de, pelo menos, duas correntes de política externa que já vem se enfrentando em calorosas discussões sobre temas recentes, como o emprego de drones, a ajuda ao Egito e as espionagens da Agência Nacional de Segurança.
Uma das correntes defende que a missão norte-americana transcende a diplomacia ordinária, penhorando-a em modelo de liberdade para o resto do mundo. Nesse grupo destacam-se os neoconservadores, que ganharam espaço dentro do partido durante a era Reagan e ocuparam cargos estratégicos na administração George W. Bush após o 11 de Setembro. O ex-candidato à Presidência John McCain é a figura que tem vocalizado as posições neoconservadoras com mais entusiasmo, defendendo um envolvimento militar mais abrangente na Síria, cuja finalidade última seria derrubar a ditadura de Bashar al-Assad. Na mesma direção que McCain, um grupo de 80 experts neoconservadores enviaram uma carta ao presidente Obama exigindo uma resposta militar ao alegado uso de armas químicas pelo regime sírio. Ainda que o plano aprovado pela Comissão de Relações Exteriores do Senado contemple uma intervenção com objetivos militares limitados, esse grupo deve apoiar Obama, reeditando a aliança de neoconservadores e liberais que esvaziou de credibilidade a política externa dos EUA na última década.
A outra corrente, que vem retomando o seu lugar dentro do partido, defende um retorno às tradicionais posições da política externa dos republicanos, resgatando seu espírito defensivo, não intervencionista e distante do fervor revolucionário dos neoconservadores. Taxados equivocadamente como isolacionistas, vários são os figurinos ideológicos que compõe essa ala: de libertários ao estilo de Ron Paul, aos realistas, que apoiam uma política externa mais comedida e pragmática.
Se este grupo demonstrasse força significativa para desautorizar o plano da Casa Branca, estaríamos diante de um fato novo na política externa republicana dos últimos 30 anos. Seria também um sinal de agonia da aliança entre neoconservadores e liberais.
* David A. Magalhães é doutorando em relações internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP).
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