Na década de 1930 andar pelas ruas
do Rio de Janeiro carregando um pandeiro
bastava para levar um tapa na cara da polícia e passar a noite na cadeia. Para
as autoridades, frequentar uma roda de samba também justificava o esculacho.
Mais de oitenta anos depois, a repressão se volta para outro gênero musical: o funk. Basta ir a um baile —ou fluxos, como são
conhecidos— nas periferias de São Paulo para estar sujeito a tiro, porrada e
bomba. Foi o que aconteceu na madrugada do dia 1º, quando uma ação da Polícia
Militar na festa conhecida como DZ7, em Paraisópolis, terminou com nove jovens mortos pisoteados
depois de serem encurralados pela tropa.
Após a comoção pelo massacre somada
aos vídeos divulgados na Internet com
policiais agredindo jovens rendidos com barras de ferro, o governador João Doria (PSDB), até
então defensor de ações da PM, ensaiou nesta quinta-feira um recuo. Ele admitiu
rever as práticas de abordagem e protocolos da polícia, e se disse “chocado”
com as imagens divulgadas. Inicialmente o tucano havia inocentado os
agentes antes mesmo do início das investigações, dizendo que a PM não havia
tido responsabilidade pela tragédia e que apenas perseguiu criminosos em uma
moto que dispararam contra a viatura (nenhuma imagem desta perseguição veio à
tona até o momento).
Ao longo da história do Brasil, mudou
o ritmo, dos tambores, pandeiros e atabaques para a batida eletrônica grave.
Mas há continuidade na repressão de manifestações culturais de matriz africana
e negra (capoeira, candomblé e samba) ou
periféricas (rap nos anos de 1990 e 2000 e funk atualmente) com empenho e violência. “Se no passado o sambista foi
classificado como vagabundo, nos dias atuais a pessoa que se diverte no baile
ou o artista do funk podem ser classificados como marginais, ou pior,
traficantes”, explica Lourenço Cardoso, professor do Instituto de Humanidades
da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira
(Unilab).

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