04 agosto 2017

TEREZA CRUVINEL: O novo golpe será o do parlamentarismo?

Todos os dias os limites do que pensávamos inaceitável e inconcebível são ultrapassados pela coalizão que tomou o poder e o exerce sem o povo e contra o povo. Todos o dias nos perguntamos: o que mais falta acontecer? O que mais, depois da votação que concedeu a Temer o estatuto da impunidade, com compra de votos por medida provisória e dentro do plenário, coroada pelo show de cinismo e desfaçatez dos mesmos deputados que depuseram Dilma por pedaladas fiscais bradando contra a corrupção?

Pode haver mais, por difícil que pareça.  Horas depois da votação, surgem dois sinais de que pode estar sendo testado o golpe do parlamentarismo: Temer disse que adotar o sistema já em 2018 “não seria fora de propósito” e o PSDB vai apresentar no dia 17 um programa televisivo inteiramente dedicado a enaltercer o sistema de governo parlamentar.

Virtudes o sistema tem, e delas se beneficiam os países que têm sistemas políticos adequados ao seu funcionamento, como partidos sólidos e regras eleitorais que garantem a sintonia entre representantes e representados. Por aqui, isso não existe. Uma Câmara que contraria a vontade de 95% da população só representa seus próprios interesses.

Aqui, na terra do Centrão, falar em parlamentarismo depois do que o Brasil assistiu pela TV na quarta-feira, 2,  chega a ser escárnio. Defender o parlamentarismo com o Parlamento que temos é dizer ao povo que ele pode até votar para presidente mas que o poder de fato será dos deputados que trocam votos por emendas e mentem descaradamente no microfone. Votam pela impunidade falando em estabilidade.

Foi de sentir vergonha alheia ver o deputado Baleia Rossi dizer que votava a favor de Temer para exorcizar a herança dos governos do PT, sendo que seu pai, Wagner Rossi, foi ministro de Dilma e de Lula. Foi nauseante saber que o deputado tatuador dedicava-se à pornografia virtual enquanto a sessão rolava. Falar em parlamentarismo agora é dizer aos eleitores que em tal sistema seremos governados por gente assim.

(Tereza Cruvinel é uma das mais respeitadas jornalistas políticas do País; trecho extraído do Brasil247)
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